Todo o sentido desse blog é a discussão livre, aberta a todos os posicionamentos. De modo que a posição que eu e os participantes do Não Reclame Vote defendemos pode e deve ser criticada por quem assim o desejar.A crítica é fundamental e sempre alimenta o debate. Dito isso, aí vai uma matéria para reflexão : Muitas coisas podem ser consideradas chavões e nem por isso são menos verdadeiras. Ser contra o racismo ou a discriminação de deficientes físicos é um lugar comum, políticamente correto. Devemos então ser racistas para não sermos políticamente corretos, não devemos abordar o tema porque é um chavão ? Inclusive se a questão é mudar a sociedade, é bom lembrar que grandes movimentos, até revoluções, foram feitas sob a égide de palavras de ordem. Sem, obviamente, entrar no mérito do acontecimento, mas para dar uma resposta àqueles que sentem falta de uma transformação mais radical e imediata, a Revolução Russa foi guiada por duas palavras : paz e terra. Mais pertinente para o tema em questão, no Brasil, a queda da ditadura e a ascensão ao poder de um Presidente civil, depois de mais de vinte anos, começaram a se tornar realidade sob o eco de outras duas palavras : Diretas Já !
As mesmas palavras podem ser usadas para justificar diferentes ações e idéias. Importa muito, então, saber o que está por trás de um discurso antes de elogiá-lo ou desqualificá-lo. Por isso mesmo o Não Reclame Vote defende o voto não como uma ação pontual, mas como um dos mecanismos de controle e exercício da cidadania. Como sempre dissemos, não pode ser o único, pelo contrário, ele só faz sentido se acompanhado de uma participação direta do cidadão.
Por quê assumimos que os políticos e o sistema corrupto tem todo o poder e nós não temos nada ? Existe sim, uma parcela da população que vende seu voto, por razões diversas, mas existem também muitos, mais do que suficientes para mudar muita coisa, que votam livremente e podem agir diretamente na sociedade. Educar é fazer política, trabalhar numa ong séria é fazer política, fazer parte de um grêmio é fazer política, discutir com amigos é fazer política.
Por quê divorciar tudo isso da política partidária ? Não adianta esperar as coisas acontecerem, esperar que todos tenham acesso a uma educação de qualidade para que, aí sim, as coisas mudem. A mobilização é a única saída. Sabe por quê ? Porque as escolas nunca vão melhorar sem pressão popular, sem que políticos sérios estejam no poder. Como é que podemos, ao mesmo tempo, não confiar e com razão na classe política e esperar que ela, sem transformação e ação direta da sociedade, mude alguma coisa ?
Não acredito que possamos desvincular a nossa democracia da própria estrutura da nossa sociedade. Não podemos isola-la e dizer,” bom, vamos dar um recado, vamos acabar com esse sistema porquê as coisas vão mudar”. Os corruptos, os que usam o dinheiro para ter vantagens podem até mudar suas práticas mas continuarão perseguindo os mesmos objetivos. As brutais injustiças sociais vão continuar existindo e o sistema vai dar um jeito de se reconstituir, como sempre fez em nossa história. Eu sou o primeiro a defender mudanças profundas, mas qual seria o objetivo de desestabilizar o sistema democrático, uma revolução ? Ou abrir espaço para um novo golpe, que, por mais distante que pareça, sempre é possível, ainda mais em momentos de total descrença e instabilidade ? O primeiro caminho, revolucionário, eu não enxergo como viável nesse momento, mas mesmo que acontecesse, abriríamos mão da participação democrática, entregaríamos nossas vidas nas mãos de uma burocracia salvadora ? Porque se continuasse a haver democracia os problemas continuariam a existir, a sociedade não mudaria de uma hora para a outra. Corruptos e ladrões continuariam a existir,e o que nós faríamos então ? Por isso tenho a convicçãode que, qualquer que seja a posição política defendida, por mais radical e transformadora que seja, ela só será realzada a partir da participação. Precisamos e podemos invadir e mudar o sistema, mas isso dá trabalho e leva tempo. Se formos desqualificar qualquer caminho porque ele não é imediato nunca chegaremos a lugar nenhum.
Nunca é demais lembrar que já tivemos políticos que quiseram passar por cima do sistema representativo, que se aproveitaram da descrença e das divisões da sociedade para levar a frente um discurso e um projeto individual e salvacionista. Os nomes Jânio Quadros e Collor de Mello soam familiares ? Fora do Brasil, na França das últimas eleições, o fascista Jean Marie Le Pen chegou ao segundo turno porque uma boa parte dos jovens, donos de um voto tradicionalmente mais progressista, recusaram-se a votar.
Por fim quero reiterar que o objetivo do Não Reclame Vote é incentivar a mobilização social, é dizer que não basta criticar, é preciso agir, apontar caminhos porque se não nada vai mudar. Falar, mesmo com razão, é fácil. Eu bem que gostaria de poder pagar meus impostos e ver que eles estavam sendo bem administrados e que o país crescia de forma justa, mas isso, infelizmente, não vai acontecer. Se alguém é capaz de mudar, esse alguém somos nós. Fora isso o único caminho é desitir - e esse eu não quero seguir.
Um abraço a todos
Escrito por João Estrella Bettencourt às 19h23
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